Não quero mais ser quem eu sou. Quero ser quem eu era. Aquela menina que gostava de natureza, paz e amor. E isso já bastava pra ter uma vida feliz. Agora as obrigações não deixam nem ao menos me lembrar dessas coisas. E quando lembro, há coisas mais “importantes” para serem feitas. Cuidar de mim virou segundo plano. Agora é trabalho e faculdade. Sim, isto é péssimo! E é culpa minha, confesso. Não tenho justificativas pra isso, apenas que esse maldito mundo moderno me suga mais e mais. Mas um dia ainda volto a ser quem eu era.
Férias de Julho
Durante muitos anos de vida, minhas férias de julho tinham destino certo: Fazenda da Laje.
Esperava ansiosamente pela viagem, para ver meus primos e familiares, e esperava mais ainda para chegar à fazenda.
Aquela estrada de terra, aquelas montanhas, o céu azul, tudo era fascinante!
A casa era simples, mas bem grande. Era amarela, com janelas azuis e uma varanda. Dentro, cozinha com fogão a lenha, chão de cimento e uma mesa grande. Em um corredor quase que infinito eram os quartos, com chão de madeira. Embaixo, havia um porão onde moravam muitos morcegos.
Entre os muitos quartos que lá haviam, um era especial.Nele tinha um baú com muitas roupas velhas. Lá era nossa transformação. Botávamos a roupinha mais velha, chinelos de dedos ou até descalço mesmo, e íamos desbravar aquelas terras!
O dia começava antes mesmo de o sol raiar, lá pelas 5 e tantas da manhã. A grama molhada de orvalho, gelava o corpo todo. Todos juntos se dirigiam ao curral pra ver o Vô Nezinho tirar leite da vaca.
Depois, subíamos para tomar café, com biscoitos e queijo. E após o café, a criançada ia brincar.
Íamos a cachoeira, pescar, andar a cavalo, zorra, carro de boi, brincar de pique-esconde, guerrinha de estrume, fugir das vacas bravas.
Quando a tarde começava a cair era a hora do banho (o banho quente dependia do fogão a lenha, que esquentava os encanamentos). Como lá não havia luz, fazíamos uma fogueira na cozinha e todos sentavam em volta. Esta era a hora das histórias. Tinha de tudo: terror, piada, micos, lembranças…
Depois de 1 semana nessa felicidade toda, começavam os preparativos pra ir embora: tirar carrapato do corpo, bicho de pé, esfregar limão no pé (pra tirar o encardido) e trocar de roupa.
Gêmeas
Lembro, quando criança, elas eram melhores amigas. Hoje, não passam de conhecidas. Idênticas desde a fecundação, estavam sempre juntas.
Quantas culpas já levaram trocadas? Crianças no fundo diferentes, uma moderna e a outra “caipira”, como naqueles desenhos em que um gêmeo sempre é o “mais esperto”.
Havia época em que brincavam sempre juntas, sempre que uma era presenteada a outra se dava bem, pois eram as mesmas. Mas algo não a contentava e logo, ela queria o que era da outra. Mesmo com este ímpeto, o amor era recíproco.
Uma completava a outra, mas aquela amizade acabou. Não se sabe ao certo quando isto aconteceu, talvez pelos caminhos que escolheram, pelos amores passageiros, ou até eternos.
Mas, acabou.
